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sábado, 12 de novembro de 2016

Bate o sino, pequenino

Justiça determina que sino de igreja badale mais baixo.

Eu sou do tipo que se incomoda com o barulho alheio, mas reconheço que tudo tem limites.

Aqui em frente a minha casa tem uma instituição religiosa. Nos domingos de manhã, eles fazem cantorias e tem algazarra de crianças.

Mesmo com as normas gerais de horários e limites para emissão de ruídos, sempre vai haver uma zona impossível de controlar.

Quem mora ao lado de um local que dá aula de natação, por exemplo, vai limitar o som das braçadas na água?

E quem mora ao lado do aeroporto ou do porto? Tem como evitar o barulho das máquinas?

A instituição religiosa já existia quando eu decidi morar aqui e acho que esse pode ser um critério para decidir como resolver nessas áreas em que as leis existentes não dão conta.
Se eu comprei um apartamento ao lado daquele estabelecimento, mais barato do que um imóvel em uma loteamento/bairro sem comércio por perto, a opção foi minha.

O sino de uma igreja tem uma função: avisar aos fiéis que a missa vai começar.
Se o sino tocar baixinho, ele não tem razão para tocar. Pode-se limitar a quantidade de vezes que se toca o sino durante o dia. Pode-se determinar que horário inicia e que horário não se toca mais. Pode-se até proibir que o sino toque pra sempre. Mas determinar que o sino toque baixo é de uma estupidez e inutilidade sem tamanho.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

A carne mais barata do mercado...

Acabei de ler um texto raso, dizendo que escravidão não é apenas de brancos contra negros e que muitos povos na história foram escravizados em guerras.

Ninguém discute isso. Mas há particularidades na escravidão de pessoas da África pelos europeus que só um racista incontido deseja negar.

Em primeiro lugar, não havia nenhuma guerra entre os países europeus e países africanos. Portugal não estava invadindo o continente africano. Apenas comprando pessoas de lá.

Esse modelo de escravização de pessoas de países subjugados em guerra já estava em declínio na Europa. Em casos de guerras, anexava-se o local ao domínio do vencedor e as pessoas passavam a servir ao rei como os demais já serviam.

Nos outros modelos de escravização, os escravos tinham certos direitos. Eram pessoas escravizadas. Com menos direitos por serem de outros povos ou inimigos, mas pessoas. Os africanos foram tratados como coisas ou animais, de forma sem precedente. Só comparado, não à toa, ao tratamento que os nazistas davam aos judeus. Vê-se nesse comportamento uma ideia de supremacia de uma raça sobre a outra.

Em outros modelos de escravização, os opressores tentam imprimir sua religião aos vencidos. Na escravidão contra os povos da África, houve um período em que a religião chegou a dizer que eles não possuíam alma.

Independente de ter existido outras formas de escravidão, a verdade é que, não sendo por questões étnicas, ao fim desse período a tendência é que não se tenha na sociedade nenhuma diferença de tratamento entre os descendentes naquela população. No caso de um escravismo por etnia, os descendentes daquela etnia continuam sendo discriminados.

Essa semana vi um vídeo em que uma mulher pergunta a uma plateia de brancos: “Quantos aqui gostariam de ser tratados como a nossa sociedade trata os negros?”

Quando um branco responder afirmativamente a essa pergunta, ele pode entrar na discussão sobre os rumos que os movimentos em defesa dos direitos do negro devem tomar.

domingo, 31 de julho de 2016

Tudo nosso

Vendo queixas de motoristas e de usuários de Uber me faz pensar que as coisas aqui não prosperam por causa da maldita Lei de Gerson.

O brasileiro insiste em levar vantagem em tudo.

Os passageiros reclamam que os motoristas do Uber não conhecem os caminhos e que por serem poucos, demoram pra atender.

Sim, o preço para um serviço de nível, sem aborrecimento com corridas curtas e por um custo menor é indicar o caminho, verificar se o GPS está indicando o melhor caminho e se programar para viagens, pedindo a corrida com antecedência.

Os motoristas reclamam que a tarifa é baixa e que por vezes as corridas são curtas.

Sim, o preço a se pagar por fazer transporte sem pagar R$ 100.000,00 em um alvará (se achar um) ou R$ 700,00 semanais para o dono de um, além das taxas da prefeitura, é ter uma margem de lucro menor e fazer mais corridas.

Passageiros querem um serviço de motorista particular, pagando pouco. Motoristas querem ficar rico, fazendo bico no Uber, rodando quando der.

Passageiros, estão insatisfeitos? Peguem táxi.

Motoristas, estão insatisfeitos? Vão trabalhar em outra coisa.

domingo, 17 de julho de 2016

Mãe, ó Mãe Natureza

Resolvemos colocar um bebedouro para passarinhos na nossa varanda.
Imaginamos que seria agradável ouvir e ver os passarinhos vindo beber água e cantando em nossa casa.





Ocorre que, à noite, os morcegos resolveram vir também beber água. Eu não tenho nada contra a espécie de ninguém e não negaria água a um animal, ainda mais da mesma classe que eu, porém os morcegos têm um péssimo senso de direção e, após beber água, não conseguem sair da varanda e acabam entrando aqui em casa. E não estou falando de um ou dois morceguinhos, mas de grupos desses seres encantadores que ficam voando pela sala, cozinha e enlouquecendo Zumbi que tenta pegá-los. E detalhe, Zumbi é um excelente caçador e sua lista de conquistas inclui lagartixas, passarinhos, mico, sapo, galinhas e morcego. Sim, ele já matou ao menos um animal de cada espécie citada.






Por isso, para evitar uma chacina morceguífera aqui em casa, nós resolvemos retirar o bebedouro à noite, evitando que os morcegos venham beber água e fiquem presos aqui dentro.



E agora, o que acontece de manhã quando os passarinhos chegam, ainda estamos dormindo e não tem água? 
Esses seres adoráveis começam a reclamar e fazer barulho e bater nas coisas que tem na varanda. Isso mesmo, esses pequenos ditadores nos fizeram de escravos e temos que acordar cedo para colocar a água senão eles reclamam de forma assustadora e tenho até medo de que o condomínio nos dê uma multa.


Sem contar que não raro tem umas tretas entre passarinhos, geralmente, envolvendo algum beija-flor.





A natureza é assim, essa ingrata. A gente faz tudo pro ela e ela nos retribui dessa forma.

sábado, 21 de maio de 2016

Temos nosso próprio tempo

Acabo de ver X-men: Apocalipse.

Não me incomoda que os filmes não sigam fielmente os quadrinhos. É uma outra linguagem, uma outra interpretação da história.

Mas eu imagino uma reunião na Fox para decidir o lançamento do filme...

- Então, revisaram tudo que está sendo feito no filme? E vê se, dessa vez,  vocês não erram os poderes.

- Como assim?

- A galera reclamou daquele lance de Kitty Pride fazer as pessoas voltarem no tempo. Dessa vez vocês checaram os poderes de todo mundo?

- Bom... Tem a Psylocke.

- Que tem ela?

- A gente já gravou as cenas dela, mas ouvimos dizer agora que ela é telepata.

- Psylocke é a ruiva?

- Não. A asiática.

- Tem uma asiática?

- Tem, mas ela é inglesa. É a de maiô roxo.

- Não. Essa de maiô roxo é a que gera uns raios que vira espada. Tenho certeza que a telepata é a ruiva.  Mais alguma coisa?

- Pessoal tá reclamando do Ciclope. Na verdade dos raios dele.

-Por quê? Esse eu sei o poder. Raio laser que sai dos olhos. Esse está desde o começo e a gente checou. Vai dizer que o raio não sai dos olhos?

- Dos olhos sai, mas tão falando que não é raio laser. Dizem que é um tal de raio de concussão.

- Confusão?

- Concusão.

- E o que é isso?

- Sei lá.

- Então deixa. O raio é vermelho?

- É.

- Então está certo. Vê se em algum momento tem alguém falando o nome do raio. Se estiver, edita a cena e pronto. Não fala o nome.

- Mas é que parece que esse raio de concusão não queima as coisas. Só destrói, derruba, mas não queima.

- Como não queima? Se até chamam de visão de calor! 

- Na verdade, quem tem visão de calor é o Superman.

- Que pariu, viu? E tem cena desse raio queimando coisas?

- Tem. Na maioria, a gente pode dizer que foi algo que foi destruído pelo raio que incendiou. Um cano de gás,  um fio etc. Mas tem a cena da árvore. Não tem como o raio de concussão incendiar uma árvore.

- A cena da árvore fica. Foi uma fortuna de CGI.  Vai ficar. Fora isso, mais alguma reclamação dos poderes?

- Galera achou o poder do Mercúrio meio exagerado. Disse que está mais rápido que o Flash.

- Quem faz o papel do Flash?

- O Flash não é desse filme.

- Então, não tem como eles saberem quem é o mais rápido. Se não está no filme, eles não vão correr junto. Mais alguma coisa?

- De poder, não.

- Ótimo.

- Mas o pessoal falou que estamos derrapando na cronologia.

- É. Já ouvi isso também. Na verdade, alguém sabe que diabo é isso de cronologia que eles tanto falam?

- Parece que só o pessoal dos quadrinhos entende disso.  Perguntei pra um monte de gente e ninguém sabe.

- Aí tá foda.

- Mas a gente não pode errar dessa vez nisso, pois tem uns três filme que reclamam dessa tal cronologia.

- Eu sei. Ainda ficam dizendo "porque o Universo Cinematográfico da Marvel segue a cronologia, mas os X-men..."

- Por isso que a gente teve a idéia de chamar alguém de quadrinhos para nos ajudar a entender e estabelecer esse lance de cronologia.

- Tá maluco? O pessoal da Marvel quer mais é que a gente se ferre, pra eles levarem a franquia de volta. Eu vou lá confiar neles?

- Aí é que está chefe. Não trouxemos ninguém da Marvel, não. Chamamos para nós ajudar com a cronologia um cara lá da DC.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Vou bater na sua porta de noite, completamente nua

Ontem eu me diverti bastante ao descobrir que a esposa do novo Ministro do Turismo é a Milena dos Esportes, antiga candidata a vereadora de Salvador.

Lógico que a Internet deitou e rolou nos memes, piadas maliciosas e as coisas de sempre.

Hoje, no entanto, comecei a ouvir coisas como: vagabunda, falta de moral,  vergonha e "ele deveria ser demitido".

Pra começo de conversa,  o ministro do turismo, ao que eu saiba, nunca fez discursos contra a nudez, a favor da religião, etc. Então, o fato de sua mulher já ter posado nua, não o torna hipócrita, mentiroso.

Depois, até onde se sabe, ele já sabia das fotos da mulher antes de se casar com ela, e se ele não se importou, quem somos nós.

Terceiro,  as fotos que vi de Milena, por mais sexy que sejam, não é de nudez frontal. Está sempre com um biquíni minúsculo, como as filhas e esposas de muita gente que está falando mal dela usam na praia ou no clube.

O Brasil é um país que aplaude a nudez, especialmente a nudez feminina. Basta ver o louvor que se tece às rainhas das baterias, madrinhas e destaques das escolas de samba.

Não me consta que seja requisito para ser ministro que suas esposas sejam castas, pudicas, vestais... Até porque esse não é o perfil da maioria das mulheres brasileiras.

Então, o povo que não se escandaliza com a corrupção, com a roubalheira, com um presidente da Câmara que distorce as regras para ficar impune de uma acusação, agora fica de mimimi por causa da bunda da esposa do ministro.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Me veio inspiração

Pronto. Agora os movimentos de esquerda estão dizendo que não pode chamar a advogada louca de desequilibrada porque é tão machismo quanto chamar Dilma de desequilibrada.

Não. Não é. Não há qualquer machismo em se chamar uma mulher de desequilibrada. O machismo consiste em considerar uma atitude desequilibrada quando ela é tomada por uma mulher e uma reação normal quando é praticada por um homem.

Dilma tem aparecido em público com toda a normalidade diante dos últimos acontecimentos. Ainda que seja lá o normal de Dilma, com seus discursos que sei lá quem entende. Aliás, até melhorou nesse ponto. Collor, na época do seu impeachment, aparecia com verdadeira cara de psicopata, com os olhos esbugalhados que ia matar um. E ninguém questionava sua sanidade.

A advogada do impeachment se comportou de uma forma que muitos pastores evangélicos se comportam e, igualmente, são motivos de escárnio e taxados de insanos.

O mesmo comportamento praticado por homem ou mulher, tem o mesmo conceito da sociedade, então não é machismo ou sexismo. Pode até ser um preconceito, especialmente com quem sofre de transtornos mentais, mas machismo não é.

E não me venham as mulheres me dizerem que eu não posso falar o que é machismo ou não só porque sou homem.

Eu não sou defunto e sei o que é homicídio. O machismo não pode ser considerado só do ponto de vista da suscetibilidade de quem se sente ofendido. Da mesma forma que não pode ser desconsiderado apenas pela não intenção de quem o comete.

Para que as relações possam existir entre as pessoas é preciso termos parâmetros gerais sobre o aceitável ou não, e não apenas a posição individual de cada um, senão fica impossível se relacionar.

O que se pode, aliás se deve, é evoluir esses conceitos. Por exemplo, estupro era apenas a penetração da mulher de maneira forçada. Com o tempo, ampliamos o conceito de que essa "força"  não precisava ser só física, mas a mulher coagida psicologicamente a ter essa relação contra sua vontade é estupro. Hoje já se avançou para o conceito de que qualquer contato violento de cunho sexual contra a vontade da pessoa é estupro. E com isso, não há dúvidas de que o beijo forçado no carnaval de enquadra nessa categoria.

O que não dá é dizer que o beijo "roubado"  também seja, porque a mulher "se sentiu estuprada". O beijo roubado pode ser desrespeitoso, por não ter o consentimento, mas sem a violência (susto não é violência) não caracteriza estupro.

domingo, 3 de abril de 2016

Do barro em que você foi gerada

Lembro de uma eleição para prefeitura da cidade de Camacã, cidade próspera e moderna do interior da Bahia.

De um lado,  o candidato da situação. Político de longa data e parente do governador Paulo Souto.

De outro,  "a esposa de Dr. Rubens", médico que teve sua candidatura bloqueada por uma aliança de seu partido com o PFL,  após o prazo para desfiliação.

O argumento de ambos os lados era que quem iria governar era o marido. Assim, os adeptos de Dr. Rubens, votariam na esposa, mas muitos indecisos questionavam isso e sucumbiam à propaganda do opositor, que estava em aparente vantagem. Vantagem tão grande, que uma empresária da cidade prometeu dar para um jegue se a mulher de Dr. Rubens ganhasse.

E eis que ACM, o Velho, resolveu ir num comício em Camacã , dada a importância dessa cidade para o cenário político-econômico do país. Já estava próximo das eleições e um discurso de visita tão ilustre era considerada a pá de cal na candidatura da mulher.

Em sua fala, ACM exortava: "Dr. Rubens, não exponha sua mulher desse jeito. Não se esconda atrás da sua mulher. O nome de minha mulher é Arlete,  mas eu é que venho aqui, enquanto ela fica lá no lugar dela, cuidando da cozinha, da casa, dos filhos".

O que se seguiu, só quem estava na cidade pode descrever com clareza.
Uma passeata de mulheres, batendo panelas, bradando contra o machismo e gritando: "o povo é que quer, votar na mulher".  E, de repente, a "esposa de Dr. Rubens" virou "Débora". Trouxe o voto das mulheres e de muitos maridos de mulheres fortes. Estes, não sei se reconhecendo ou submetidos à essa força.

Foi como se aquele discurso tivesse lembrado às pessoas o que realmente significava aquela proposta política. Revelava que tipo de gente era aquela. Ia além do não investir em educação para fazer festa, ou se roubava ou não dinheiro. Mostrava como aquelas pessoas eram em suas vidas privadas.

Débora ganhou a eleição para surpresa de muitos. A cidade comemorava como em uma catarse. Trouxeram até um jegue, de gravata, para a empresária que, para decepção de muitos, não cumpriu a promessa, mas ficou conhecida por muito tempo como "Paula do Jegue", apelido que tive que evitar depois que ela se casou com um colega de trabalho.

Hoje, vendo a capa da IstoÉ, lembrei de tudo isso.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Tem dias que a gente se sente

- Sem gelo, eu disse quando percebi que a moça os colocava gelo no copo antes de pegar o refrigerante na máquina.

- Êêê, pessoa de nome inaudível, mas que se tratava do caixa da lanchonete,  você esqueceu de colocar que era sem gelo.

- Ele não pediu sem gelo, não.

O "ele",  no caso,  era eu,  que estava perto dele e na hora só pensei: que dia extraordinariamente feliz para esse caixa.

Não sei se por ser uma sexta-feira, se por eu estar viajando ou se por efeito de medicamentos, eu resolvi não dar a ele a seguinte resposta, que elaborei rapidamente, até porque parte dela já foi usada pra outro atendente dessa mesma rede de fast-food:

- Pra começar, não me trate por "ele". Se há alguma dúvida sobre o pedido, você deveria perguntar pra mim: Sr. (opcional) Djaman (você perguntou meu nome e anotou nesse papel que está a sua frente), o seu refrigerante é com gelo ou não?

- Segundo, eu sempre peço refrigerante sem gelo. É tão automático que eu peço mesmo nas lanchonetes que eu sei que não servem gelo, como a Cupim Pão de Batata.

- Terceiro,  eu tenho certeza que pedi e reparei que você não prestava atenção porque enquanto eu falava você foi conversar com o cliente que reclamou que não veio dos quarteirões e você disse que ele que esqueceu de pedir.

- Quarto, ainda que eu não pedisse, eu estou comprando refrigerante. Não há qualquer aviso na tabela de preço ou no cardápio de que esse refrigerante virá com gelo, então deveria ser sua obrigação perguntar se é com gelo ou não se o cliente não fala nada.

- Quinto,  essa sua batata está horrível, prova da ineficiência dessa lanchonete, mas isso não é culpa sua, além disso eu não posso saber dessa informação agora, mas só daqui há alguns minutos, quando terei provado e deixado a batata lá, antes de digitar esse diálogo.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Só é possível filosofar em Alemão

As redes sociais fizeram mais pela educação brasileira do que as faculdades, doutorados e mestrados de que o governo tanto se orgulha de ter criado.
De repente, somos uma pátria de pensadores. Nas mas diversas áreas. Mais do que pensadores, somos escritores. E não precisamos nem pesquisar sobre o que queremos opinar. Abaixo tem um vídeo muito interessante sobre isso. Não é o foco dessa postagem, mas vale a pena ler, antes de continuarmos. Aliás, se tiver que escolher entre o texto e o vídeo, recomendo este, pois é muito mais interessante.



Mas, voltando ao que eu dizia. As pessoas não só adquiriram conhecimento para discutir com propriedade sobre tudo, como ainda aprenderam alguns estilos. O mais recente é a parábola, ainda que muitos compartilhem e elogiem chamando de "metáfora". Mas na verdade, se tratam de parábolas. A pessoa conta uma historinha, cujo desfecho coincide com o seu modo de pensar, levando os demais a compararem a situação da historia com a situação real e, assim, concluem que o mesmo raciocínio a ser aplicado na história deve ser aplicado à realidade.

O que as pessoas esquecem é que para isso funcionar a comparação tem que envolver todos os aspectos da situação. Uma comparação parcial, leva a uma conclusão equivocada, distorcida. Esse erro na construção da parábola nem sempre é por descuido, trata-se de má fé, mesmo.

Outro dia ouvi uma parábola que falava sobre uma mulher estar sendo estuprada. E da casa ao lado, um assaltante liga para a polícia. Aí o autor perguntava se a polícia não deveria fazer nada só porque o denunciante era um assaltante.
Logo, todos os sábios e filósofos do Facebook entenderam a comparação com o pedido de impeachment de Dilma e o fato de o denunciante ser Cunha.
Mas a comparação é inexata.

Sendo estupro um crime por demais hediondo para ser banalizado em comparações e para que, na discussão, não surja involuntariamente qualquer palavra que minimize esse crime, permitam-me usar outro.

Vamos usar o ROUBO. Aliás, para analisar a questão, não entendo porque usar o estupro, o roubo me parece muito mais fácil de comparar com a situação real, quase não precisamos de esforço. Então aqui vai a minha parábola, tentando colocar o máximo de comparação com a situação real, para podermos tirar nossas conclusões.

Havia um reino cuja sede era um palácio suntuoso. Os moradores do reino trabalhavam, pagavam os impostos que iam para o palácio e o rei fornecia a eles segurança e alguns serviços.

Esse reino foi vítima de uma feitiçaria. Durante doze horas do dia, todos os homens de bem do reino caiam em profundo sono. Nesse período, apenas malfeitores, ladrões, salteadores, ficavam acordados. Mas os honestos não sabiam disso. Pensavam que todos no reino dormiam igualmente nesse período.

Tendo metade do dia para andar impune, os bandidos cometiam pequenos delitos. Roubavam da comida dos moradores e, portanto, não precisavam trabalhar.  Quando o reino estava acordado, os moradores percebiam as diferenças. Sentiam falta de um pouco de farinha, de um pouco de carne, e acabavam tendo que trabalhar um pouco mais para suprir aquela falta.
Com o tempo, os bandidos se dividiram em duas grandes quadrilhas.
E uma das quadrilhas teve a ideia de ir saquear o palácio real. Em doze horas, eles retiravam pequenos objetos de prata e de ouro. E saiam sem que ninguém percebesse. A outra quadrilha continuou, sem saber dessa movimentação, saqueando a comida, só o necessário para sobreviver sem trabalhar.
Ocorre que, mesmo, retirando as coisas aos poucos, a riqueza do Palácio foi sumindo. A realeza já não conseguia mais esconder da população que seus pertences estavam sumindo, pois ela não conseguia suprir as necessidades do povo, ainda mais sendo surrupiadas pela outra quadrilha. E o povo tinha que trabalhar mais para repor a riqueza do palácio. Com isso, ficava menos comida para a quadrilha que pegava só da população.

Começaram então os rumores de que o palácio estava sendo saqueado. Mas como? O Palácio possuía guardas fortemente armados, sempre vigilantes, exceto naquele período em que o reino inteiro dormia. Reino inteiro? A-há. O outro bando, que sabia que malfeitores ficavam acordados durante a maldição, perceberam que os rivais estavam há tempos indo roubar lá no palácio, e resolveram fazer a mesma coisa. Só que ponderaram, os talheres, pratos, quadros do Palácio já foram quase todos surrupiados. A população não tem mais como trabalhar para se sustentar e sustentar o palácio. E sem a população, eles não teriam como sobreviver, pois não teriam mais de quem roubar. Era preciso ir com cautela.

Assim, essa quadrilha foi a Palácio, mas pela porta dos fundos, para ver se havia alguma riqueza lá atrás que a primeira quadrilha não percebeu. E que sorte deram. Encontravam o secreto cofre real. E tiraram muito de lá. Mas muito mesmo. Não foram pacientes, nem tiraram aos poucos com a primeira quadrilha. Por outro lado, tiveram uma ideia: devolveriam parte daquilo para a população, para que ela continuasse a produzir e mandar riquezas para o palácio.

Então a população viu, de repente, surgir, onde antes desparecia comida, um pouquinho de dinheiro, que a permitia sair daquele ritmo de trabalho absurdo, ainda que não a devolvesse ao estado anterior.

A primeira quadrilha logo entendeu, os outros bandidos tiveram acesso a um tesouro do palácio que eles não tiveram e estavam dando uns trocados para a população. A quadrilha tentou barganhar com a outra e também roubar o cofre, mas esta disse: Não. Nos anos que vocês roubaram os salões do palácio nunca dividiu conosco e agora só nos procura porque está difícil tirar de lá. Agora, façam como a gente fazia, vão roubar apenas da farinha e do frango do povo. Mas esses bandidos não poderiam mais voltar a fazer isso. Eles estavam acostumados às riquezas do palácio e nem sabiam mais andar pelo vilarejo para roubar.

Então a primeira quadrilha resolver denunciar tudo para a população. Revelou que a outra quadrilha roubava os cofres, pois durante 12 horas não era todo o reino que dormia, mas apenas os honestos. Só que, para fazer isso, eles tiveram que assumir que também ficavam acordados e descobriu-se que eles que haviam saqueado primeiramente o palácio.

O que fez a população? Ao invés de prenderem todos nas masmorras para garantir que não saíssem mais durante as horas de sono, começaram a discutir quem tinha mais direito a continuar roubando o palácio real: se os bandidos que chegaram primeiro e retiravam as coisas aos poucos, ou se os bandidos que chegaram depois, retiraram muito de vez, mas redistribuíram um pouquinho. Discutia-se, até, se a primeira quadrilha não deveria ser indicada para fazer a segurança do cofre real para que a segunda não mais o saqueasse.

E enquanto o povo discutia durante as doze horas de vigília, logo chegavam as horas da maldição e as duas quadrilhas continuavam à solta.

E isso, senhores, não é uma parábola, porque não encerra nenhum conteúdo moral. Aliás, isso é uma imoralidade sem tamanho.