domingo, 18 de janeiro de 2015

Tão complicado como A+B

Questão de lógica :

1. O Islã acredita que a figura de Maomé é sagrada.
2. Humoristas têm liberdade de expressão para desenhar Maomé, mas como isso ofende os islâmicos e eles podem invadir suas redações e lhes tirar a vida eles devem :
A) evitar de exercer esse direito
B) exercer esse direito e o Estado e a sociedade devem reprimir qualquer atentado a isso.

Seguindo o mesmo raciocínio :

1. Protestantes acreditam que só existe um deus verdadeiro e qualquer outra entidade sobrenatural que se apresenta provém do demônio e deve ser combatida porque está levando as pessoas ao inferno.
2. Adeptos de religiões afro acreditam em seres sobrenaturais,  icônicos,  representativos de diversos elementos da natureza e da personalidade humana e a lei lhes garante o direito de ter seus cultos, mas como isso ofende os evangélicos e para evitar que eles invadam suas territórios e joguem pedras em suas imagens,  eles devem:

A) evitar de exercer esse direito
B) exercer esse direito e o Estado e a sociedade devem reprimir qualquer atentado a isso.

Antes de emitir uma opinião sobre um fato isolado,  as pessoas devem pensar nos princípios envolvidos.
É fácil falar: seu direito termina onde começa o do outro. Mas esquecem que isso vale para os dois lados. O direito à religião não se sobrepõe a todos os demais direitos,  e esse é justamente o erro das pessoas. Você tem seu direito a crer, eu tenho meu direito a me expressar. Desde que um não incite a violência,  ao ódio, a menosprezar as pessoas,  cada um deve exercê-lo tranquilamente.
O humorista tem direito a desenhar Maomé,  o muçulmano tem direito a orientar seus fiéis que aquela publicação está errada e deve ser evitada.
O jornal não pode escrever artigos que incitem agredir muçulmanos,  os muçulmanos não podem incitar ataques a quem não comunga com sua fé.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Muito mais que 50 tons

As três principais religiões monoteístas cobrem quase todo o mundo. Daí ser matematicamente explicável que os maiores crimes noticiados envolvam países e pessoas de uma dessas religiões.

Agora,  o fato de os maiores crimes COM MOTIVAÇÃO RELIGIOSA serem justamente das religiões monoteístas leva a pensar.

E não é difícil ver os motivos. A religião monoteísta polariza as coisas entre bem e mal, 100% certo e 100% errado, Deus ou diabo... Eu ou você.

Não há espaço para diálogo,  consenso, acordo,  meio-termo.

No hinduísmo, praticamente todo mundo tem seu deus. Minha crença não se sobrepõe a sua.

Na antiga religião grega (que chamam de mitologia,  mas esquecem que era uma religião,  tão válida como qualquer outra), havia deuses que justificavam todos os sentimentos. Assim, se você sentisse ira,  você estava sob a influência de Ares. Essa influência era benéfica,  caso você entrar em uma batalha ou prejudicial, se você estivesse em relações pessoais ou familiares onde não se justificasse. Mas a ira era algo natural,  vinha de um deus tanto quanto o amor. Era questão de dose e aplicação.

No cristianismo, por exemplo,  se você fica irado "isso não é de Deus,  pois Deus é amor". Aí a pessoa é obrigada a suprimir,  a eliminar,  algo de dentro dela como se anti-natural fosse.  E quando surge aquele sentimento a explicação é que "é o inimigo rondando " ou "que não está em perfeita comunhão com Deus ".
A pessoa é instigada a viver sempre em "vigilância " conta esses ataques dos sentimentos considerados anti-naturais.

Vigilância constante contra um inimigo invisível que sugere idéias e obrigação de reprimir sentimentos?  Tire o aspecto religioso e me digam se você não indicaria tarja preta pra quem vivesse assim?

A dificuldade de tornar certos sentimentos e emoções em "malignos" ou "não naturais " é tão grande,  que a própria Bíblia comete alguns deslizes e atribui a Deus sentimentos como ira e ciúmes.

Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça. Romanos 1:18

Ou cuidais vós que em vão diz a Escritura: O Espírito que em nós habita tem ciúmes? Tiago 4:5

sábado, 10 de janeiro de 2015

Quando a fé remove a montanha que não vai a Maomé

Dizer que os chargistas mortos deveriam ter evitado fazer humor com pessoas que sabidamente são violentas é o mesmo que dizer que a forma certa e eficaz de se evitar que alguém faça o tipo de humor que você não gosta é sendo violento.

Se as pessoas se intimidassem e não fizessem piadas com Maomé, porque alguns dos seus seguidores respondem a isso com atos terroristas,  estariam passando a seguinte mensagem aos hindus,  cristãos,  budistas e demais: eles fazem piadas com as religiões de vocês porque vocês não respondem com atos terroristas.

No que tange ao respeito às crenças,  acho que uma diferença muito grande entre respeitar o direito da pessoa a crer,  que deve existir,  e respeitar uma idéia, um conceito,  um dogma. Você tem liberdade de crer no que quiser e falar sobre sua crença,  eu devo respeitar isso e não posso ridicularizá-lo por isso, mas não tenho nenhuma obrigação de considerar sagrado o que você também considera, de considerar intocável o que você considera,  de tratar de forma especial o que você trata.

E, sim,  ninguém ainda lembrou,  mas eu vou para o polêmico chute na santa proferido pelo pastor da Universal aqui no Brasil. Desnecessário,  de mau-gosto,  provocativo e quantos adjetivos queiram dar.  Pessoas se disseram ofendidas,  com todo direito de dizer-se,  e procuraram os meios legais de evitar isso.
A defesa do pastor disse,  não sem razão também,  que aquilo era um bem móvel,  de propriedade do pastor,  que estava à venda e foi adquirido por ele,  e que pra ele não tinha nenhum valor sagrado e, como tal,  ele poderia destruir. 
Temos que concordar.
A imagem (objeto, escultura) não pertencia à Igreja Católica,  assim como o direito de imagem (representação, figura)  também não.
Aí vem a alegação de destruir objeto religioso.  Ora,  a Santa só tem essa função de objeto sagrado, dentro das igrejas e dos lares de quem a cultua. Dentro da casa do pastor, trata-se de uma mera estátua. Seria muito diferente de ele entrasse em uma igreja e destruísse uma imagem. Aí não seria um mero dano à propriedade do outro,  mas a destruição de um objeto de culto religioso.

"Ahhhhh, mas então ele faça isso na casa dele e não em público,  onde católicos possam ver ", diriam os mais ponderados.  Seria o mesmo argumento de dizer que os humoristas até podem ter suas idéias mas não podem publicá-las se isso ofende outras pessoas. Será que isso é certo?  É assim que vivemos no dia-a-dia? Deixamos de fazer em público tudo que ofende a crença alheia?

Não.

Vamos para um exemplo bem simples. Comer um bife. 
E nem vou considerar os vegetarianos,  porque se eu dizer que para alguns é repugnante ver alguém comendo carne de animal,  logo vão dizer que é frescura deles (enquanto que chutar uma estátua ou fazer um desenho é coisa gravíssima). 

Mas sigamos a ótica da ofensa religiosa.

Para os hindus as vacas são sagradas. 
Não apenas as vacas nascidas,  criadas e residentes na Índia. As vacas de todo o mundo,  de qualquer cidadania,  são sagradas.
Então,  se eu como um bife, eu estou ofendendo o hindu e sua crença. Se eu faço isso em um restaurante,  se eu publico um vídeo de meu churrasco no YouTube, é possível que aquele ato seja visto por alguém que vai se ofender, e muito, com aquilo.  Seguindo a lógica usada por quem acha que charge e chute em estátua é algo grave e ofensivo,  eu só deveria  comer carne em ambientes privados,  onde pudesse me certificar que ninguém ali tem uma crença onde comer carne é ofensivo.
E por que ninguém se preocupa com isso?  Porque a maioria das pessoas no mundo acha ridícula a idéia de que uma vaca seja um animal sagrado. Porque todo mundo espera que o hindu compreenda que ninguém é obrigado a acreditar na baboseira e que fique com essas maluquices lá pro país deles.
E por que o hindu tem que ser compreensivo e os muçulmanos, não? E os católicos,  não? Porque temos uma hierarquia de valores das crenças, que tem a ver, não com a proteção ao direito de crer, como muitos tentam argumentar,  mas com poder. Alguns pela força,  outros pelo número, outros pelo domínio econômico.
Temos crenças de primeira, de segunda,  de quinta e de sei lá quantas grandezas.

Alguma crenças são "mais sagradas" que outras, são mais dignas de serem respeitadas que outras. Ainda que não falemos abertamente conta algumas crenças ,  não nos incomodamos de rir sobre elas,  nem nos chocamos se alguém fala que são baboseiras, ridículas ou maluquices como eu fiz agora há pouco.

Se não quisermos ser hipócritas, ao bradar que mesmo os descrentes tenham que se comportar como crentes para "não ofender", temos que estar preparados para fazer isso com TODAS as crenças,  e não apenas com aquelas que fazem mais barulho. Seja esse barulho de megafone,  de rádio e TV ou de tiros e bombas.

Que PI é essa?

Salvador sempre teve um público cativo de teatro que lota salas. Pelo menos, se estivermos falando de peças com atores globais. Não importa...