No curral do mundo a penar

Atualmente a ordem mundial parece ser a de privar as pessoas de qualquer manifestação de individualidade. 
Políticos e religiosos querem dizer com quem trepamos, para quem rezamos, o que lemos, assistimos, como educamos nossos (lá, deles) filhos.
Nos tiram o direito de qualquer pensamento ou escolha política. Se você votar nesse candidato é porque você é fascista, se votar no outro, é ladrão.
Agora, a moda é dizer com o que ou com quem as pessoas podem se solidarizar. Com qual drama você pode ou não se comover.

Uma coisa é analisar porque determinado fato ganha mais a repercussão na mídia e, consequentemente, maior adesão popular do que outro. Acho isso válido. Mas entrar na subjetividade das pessoas para querer dizer para onde ela deve dirigir o seu choro, aí é demais.

Eu posso ter milhares de razões, as quais não tenho nenhuma obrigação de expor, para sofrer mais pelo ocorrido em Paris do que pelo ocorrido em Mariana. Eu posso ter parentes ou amigos lá e não conhecer ninguém aqui, eu posso ter morado lá e isso atingir minha memória afetiva, ou posso ter razões só minhas que não interessam a ninguém.

Acho o cúmulo eu ter que justificar minha subjetividade. Como se chorar, rezar ou fazer poema pelas vítimas da barragem ou pela morte do rio fosse uma obrigação cívica. Não é. É uma subjetividade. E na subjetividade, eu poderia questionar: e por que as vítimas de Mariana e não os índios, os menores de rua de sua esquina, ou qualquer outra vítima das desgraças cotidianas? 

Particularmente, não consigo ver como uma coisa invalida outra. Nem porque eu tenha que escolher.

Racionalmente, independente do número de mortos, acho que o atentado da França é muito mais relevante em termos de segurança mundial do que o rompimento da barragem e só um olho no umbigo não percebe isso. Eu não imagino os donos da Vale se reunindo e decidindo qual a próxima barragem que eles vão deixar romper. Ao contrário, eu acho que os irresponsáveis que deixaram isso chegar a esse ponto, vão, ainda que em um primeiro momento, tomar certas precauções para que isso não ocorra de novo (pelo menos em breve). Já a ação do ISIS demonstra que cada vez mais eles estão destemidos e dispostos a fazer ataques, sem medo de repressão. É pior do que no Quênia? É, sim. Pois eles não atingiram um local que a imprensa não dá a mínima, com uma polícia fraca e que nenhum país está disposto a ajudar. Eles atingiram a França, país que têm turistas de todas as partes, governos aliados, colocando-se cada vez mais no centro das atenções e fazendo as pessoas exigirem uma atitude das autoridades. Isso significa quão longe eles estão dispostos a ir e o quanto devemos prestar atenção nesse fato.

Ficar com sentimentalismos sobre contagem de corpos, proximidade do ocorrido e condição social das vítimas não leva a nada. 

E, claro, pra quem perdeu a vida e parentes em qualquer canto do mundo, pouca diferença faz a cor do seu Facebook.

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