Não era o momento dele rebentar

A história foi assim. Os meninos estava correndo. Polícia atira, mata um. Fere outro. Ao sair do hospital, o rapaz foi para a prisão para responder pelo "tiroteio".

Para a população, não há dúvida. Se estava na ponta de uma bala da polícia, só pode ser bandido, associado ao bandido, cliente do bandido, ou qualquer outra coisa ruim.

Rapaz dá sua versão, família dá versão, testemunha dá versão. Não importa. Saiu a nota da polícia sobre o tiroteio.

Hoje. Imagens de um celular mostram os rapazes conversando e brincando na rua. Um pega o celular e corre os outros correm atrás rindo.

Foi isso que levou o policial a achar que estava em perigo de vida e dar os tiros que matou um e feriu o outro. No áudio, ouvimos o policial peguntar ao rapaz que ainda agonizava no chão: vocês correram por quê?

Foi preciso insistência dos vizinhos para que o socorro fosse finalmente prestado, porém um morreu no local.

Agora, com as imagens, a polícia solta outra nota. O de sempre. Policiais afastados, vai ter uma investigação, bla, bla, bla.

A questão não é essa. A questão é: e se não houvesse as imagens? A versão oficial seria aquela que a polícia deu: tiroteio. E todos diriam que quem defende esses jovens são defensores de bandido, que ninguém reclama quando policial morre, que se um deles te pegar na sinaleira você vai ver.

Até a noite de sábado, nada indicava que aqueles jovens fossem entrar para o crime e um dia apontar a arma na cabeça de alguém na sinaleira.

O rapaz que levou  tiro e ainda foi preso é trabalhador, evangélico, obreiro na igreja e estava se preparando para um teste num clube de futebol, ao qual não pôde ir, obviamente. Talvez, agora, tendo perdido chance da carreira que o esperava, tendo perdido o emprego, por ter sido preso, tendo dificuldade em achar outro já que tem ficha na polícia, quem sabe ele não veja como única forma de se sustentar trabalhar para os traficantes do morro?

Ninguém obriga ninguém a ser criminoso. Isso é fato. Mas quando se tiram todas as outras oportunidades, quando se cria um sistema que, independente do que façam, essas pessoas são mortas o que se pode esperar? Como essas pessoas vão querer ter uma vida honesta se, independente de qualquer coisa, elas são exibidas como bandidas?

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