Quem é que diz? Quem é feliz? Quem passa?

Circulou ontem e hoje a notícia de que 21 funcionários do Shopping Barra fizeram um abaixo-assinado para impedir um travesti que trabalha na Burger King de usar o banheiro feminino.

Logo de início me chamou atenção como certos veículos da imprensa noticiaram o fato. Enquanto a maioria dizia que funcionários do shopping "fizeram abaixo-assinado" ou que" tentaram barrar" ou "impedir" que "a travesti" ou "o travesti" usasse o banheiro feminino, alguns veículos como Bocão News e outros que também se dizem jornalistas, mas apenas reproduzem conteúdo alheio, estamparam: "Bafafá no shopping Barra: travesti quer usar banheiro feminino"
Essa nunca foi a notícia. O travesti já usava regularmente o banheiro. O que gerou assunto de jornal foi o abaixo-assinado dos funcionários. O Bocão News ao dar a manchete desse jeito, deixa transparecer que o travesti foi que causou a notícia, pior, culpa a vítima por ter causado um "bafafá". A manchete é preconceituosa, tendenciosa e nada tem a ver com jornalismo.

Outra coisa que notei foi o fato de que a maioria das matérias falaram que o manifesto foi assinado por "funcionários". Apenas no Bahia Notícias encontrei a expressão "funcionárias". Parece-me que, se estamos tratando do uso do banheiro feminino, não faz sentido qualquer funcionário do sexo masculino do shopping se envolver na polêmica, pois não lhe diz respeito absolutamente.

Agora entrando na questão central. Causa ou não causa constrangimento para mulheres um travesti no banheiro feminino?
Em primeiro lugar, vale avisar para os mais ignorantezinhos, que o travesti a que nos referimos não é o ator Bubba de Campos na pele de Tia Judith, nem o Xandy do Harmonia com a fantasia de Chapeuzinho Vermelho das Muquiranas. Apesar de esses artistas, nos papeis citados, estarem travestidas, eles são homens, se identificam com o gênero masculino, e se travestem ou travestiram em algum momento, por força da profissão ou por diversão. Mas não são travestis no que se refere a identidade de gênero.
O travesti aqui tratado não é aquela pessoa que um dia resolveu se vestir de mulher, mas uma pessoa que passa parte do tempo, ou todo ele, vestido e se comportando-se como o sexo oposto, adotando um nome social, maneiras e timbre de voz desse outro sexo. 
Pois bem, o travesti aqui mencionado e que se veste de mulher, se identifica com o feminino.  Então, do ponto de vista do travesti é óbvio que o lugar a ser usado é o banheiro feminino. Mas como estamos em sociedade, temos, claro, que verificar o quanto esse direito do travesti afeta os outros usuário de banheiro, não é? Então vamos lá.

O que ocorreria se um travesti, com jeito de mulher, cabelo de mulher, vestido, entrasse no banheiro masculino? Alguns poderiam pensar que era uma mulher, outros poderiam pensar que estava ali para olhá-los (muitos homens heterossexuais tem uma imagem exagerada sobre si mesmo e seus atributos físicos), muitos ficariam constrangidos.
Lembremos que que nos banheiros masculinos, apesar de haver espaços reservados, há um espaço comum dos mictórios, onde machos precisam expor seus preciosos, superestimados e frágeis membros.

E qual o efeito que tem para as outras mulheres compartilharem a pia do banheiro com um travesti? Sim, porque no banheiro feminino toda a atividade que a mulher faz sem uma peça de roupa é dentro do reservado. Na área comum do banheiro, nenhuma mulher está mais exposta do que estaria na escada rolante, no balcão da lanchonete ou na recepção do dentista. 
A prova disso é que, às vezes, ocorre de mães entrarem com seus filhos pequenos no banheiro feminino. Se houvesse o risco de o pequeno ver peitos pulando ou mulheres andando com calcinhas arriadas, as mães não os levariam pra lá. Assim, nem o travesti fica com o pênis de fora, nem vê vagina alguma de mulher enquanto está na área comum.

Outra hipocrisia dessa atitude é que existem banheiros unissex em alguns locais, inclusive aqui em Salvador. A área da pia é de uso comum e os reservados, como todos, de uso individual, independente do sexo. Nunca soube de mulher alguma fazer abaixo assinado, protesto ou boicote a esses locais por ter que dividir a pia com homens.

Também não é raro vermos nas boates e festas, quando a fila do banheiro das mulheres está dando a volta no quarteirão, como é comum, que muitas usem o banheiro masculino, na área reservada. 

Assim, não posso entender que a atitude dessas pessoas tenha tido outra motivação que não o preconceito e a cruel exposição daquele considerado "diferente", "anormal", "aberração", para ficar em algumas palavras que vi recentemente,

O ponto crucial aqui, o que realmente incomoda, é que esse travesti está trabalhando. Como qualquer pessoa normal. Normal como ele, aliás. O que essas pessoas queriam é que ele não tivesse acesso ao mercado de trabalho, como muitos não têm. Que ele fosse obrigado a se prostituir para sobreviver. Para que eles pudessem apontar seus dedos acusadores e dizer que "é isso que eles querem".

Quanto aos comentários preconceituosos sobre a notícia, dois me chamaram a atenção.
Um, de um homem, dizia que permitir travestis no banheiro feminino iria incentivar homens a se vestirem de mulher para se aproveitarem. Pensamento aceitável numa mente de, sei lá, 12 anos de idade? Mas veio de um adulto, cuja educação familiar só não deve ser pior do que a vida sexual, a ponto de pensar numa coisa dessas. Uma pessoa para a polícia observar, certamente. O que, nos tempos antigos, chamávamos de tarado.

O segundo comentário veio de uma mulher e dizia que "o lugar de travesti é no banheiro masculino". Não resisti em lembrar a essa moça que, há não muito tempo se dizia qual era o lugar da mulher, na cozinha; há mais tempo se dizia que o lugar do negro era na senzala. E hoje, século XXI, ela dizia qual era o lugar dos travestis.

Por fim, só tenho a elogiar a rápida atitude do Shopping Barra ao reiterar o direito da funcionária em usar o banheiro com o qual se identifica. Lógico que nada disso apaga o sentimento de rejeição e a vergonha pelo qual ela passou.

 

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