Quem te viu, quem TV?

Vejam só. Até pouco tempo, era preciso zapear muito nos canais abertos para se livrar de ver a banda Calypso (ou KY, como diz Tia Judith). Agora, estão implorando espaço na TV.

Banda Calypso se oferece para apresentações na TV


Joelma não ficou menos artista com suas declarações. Pelo menos, não menos do que o que era.
E ela tem, independente de ser artista, direito às suas convicções.
Mas ela sabe que suas declarações públicas têm um peso maior do que as declarações de um Djaman Barbosa.
Mídia trabalha com imagem e com associação que fazem a essa imagem.

Seria ilegal qualquer estúdio negar alugar para Joelma gravar. Seria ilegal uma casa de espetáculo negar pauta para Joelma. Isso seria discriminação. Como seria ilegal não me deixarem exercer um cargo por minhas convicções (se elas nada tivessem com o exercício do cargo).

No caso da TV é diferente. A TV não está ali pra chamar todo mundo.Ela seleciona quem vai aos programas, baseando-se na audiência que essa pessoa possa dar. Os programas podem estar com receio de se verem associados a Joelma. Acharam mais legal se verem associados a Daniela.
E por que isso? Associar-se a Joelma não agradaria aos crentes? Isso também não daria a audiência pretendida?
Afinal, os políticos também fazem o discurso dos crentes, muitos nem porque acreditam, mas para terem sua "audiência".
Talvez, os programas, assim como as empresas que patrocinariam o filme de Joelma, tenham percebido que os crentes dão audiência, mas não compram seus produtos. Para o político, tudo que precisam dos crentes é o voto. Para as empresas, é o dinheiro. E esse, as igrejas já levaram dos crentes.

E o que isso nos traz de lição?

Em primeiro lugar que políticos e grandes empresas, na sua esmagadora maioria, não agem por ideais ou convicções, mas pelo que podem ter de retorno (voto, audiência, dinheiro).

Em segundo lugar, que devemos perceber que empresas patrocinam campanhas de políticos, como patrocinam programas de TV e filmes.
E assim como deixam de patrocinar filmes e programas de TV, com medo de uma reação dos consumidores, podem deixar de patrocinar políticos.

Então poderíamos ter uma ditadura econômica, com os ricos impondo seus políticos?
Pelo contrário.
Eu já dei esse exemplo aqui: por mais que os ricos gastem em papel higiênico, eles não podem usar todo o papel que todos da classe média e baixa juntos podem usar.
Eicke Batista tem uma fortuna que não sei se minha família inteira (que é grande) movimenta por ano. Mas o desaparecimento repentino de minha família inteira abalaria mais o mercado financeiro do que o de Eicke Batista, uma vez que sumiriam, repentinamente, muitos consumidores de produtos como Dolly Guaraná, raquetes de matar mosquitos, cestinhos de desodorizadores de privada, etc.

Com esse pensamento de movimentarmos as empresas com o que queremos, teremos uma força, não de classe econômica, mas de maioria de pessoas com um mesmo pensamento, usando sua força econômica.
Pode ser que a BMW não se importe de patrocinar um político associado a causas elitistas. Mas teríamos a OAS, a Fiat, a Palmolive, preocupadas em se associar a políticos que se identificassem com a maioria da população.

Claro que, com a corrupção e o total desconhecimento da população sobre que empresa apóia quem, hoje as empresas contribuem com base nas probabilidades de o político ganhar e lhes dar o retorno em licitações fraudulentas.
Mas quem sabe se começarmos a ficar de olho, a usar os portais como Transparência Brasil para verificar a relação das empresas com os políticos, a denunciar nas redes sociais não apenas os políticos, mas também seus patrocinadores, a coisa comece a mudar.

Ao invés de falar do Senador Renan Calheiros, vamos propor um boicote à empresa Tarumã Empreendimentos Imobiliários. O Senador sempre terá votos. O voto é obrigatório e é fácil de manipular a classe pobre para obtê-lo. Mas nenhuma lei pode obrigar ninguém a comprar um imóvel do Senador, nem de seus patrocinadores.

Ao invés de atacar na ponta da corrupção, esperando um dia que um deus qualquer toque o coração dessas pessoas ou que uma fada os transforme em seres humanos de verdade, vamos atacar a fonte pagadora da corrupção.

Que Joelma nos sirva de exemplo nisso.

Quanto à Banda Calypso, só resta a mídia cantar pra ela:

Perdoa por te magoar, amor
Perdoa por te abandonar, amor
Por te fazer chorar, por te fazer sofrer

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