Jogo de Dama

Fui assistir ao show A Dama Indigna, com Cida Moreira.
É a segunda vez que vejo um show dela. No primeiro, foi onde vi pela primeira vez Márcia Castro.
Entre o primeiro e o segundo show fiz o download do seu novo cd, em um link disponibilizado por ela mesma, sob a condição de ir a dois shows. Só fui em um, mas comprei o dvd. Acho que conta.
Durante essa excelente apresentação, pensei que Cida Moreira não sabe cantar, Cida Moreira não sabe interpretar e Cida Moreira não sabe tocar piano.
Cida Moreira é uma artista. E usa o corpo, a voz, o instrumento, a palavra, o que for, para expressar essa arte de uma forma que ultrapassa o saber. É o ser dela.
Ainda que o show seja dirigido, ainda que ela esteja dando um texto, ainda que vista um figurino, a impressão que tive era que no palco estava a artista e a mulher, porque me parecem indissolúveis.
E não venham me dizer que é sempre assim.
Pude fantasiar Cida Moreira, na juventude, de macacão (sei lá porquê), à cata de um lápis, caneta, pincel, spray, papelão, badolim, qualquer coisa que pudesse usar para expressar a arte que queria sair de si. E se não encontrasse nada disso, ela usaria o rosto, as mãos, o tom de voz. Não consigo visualizar nada disso de, por exemplo, Marília Pera. Ainda que esta última pudesse ser assim. Mas pra mim, a atriz Marília Pera surge quando ela se torna atriz.
Cida Moreira no palco, ainda que seguindo um roteiro, parecia pra mim a mesma mulher capaz de fritar um ovo, pagar as contas, ralhar com os filhos, trepar, derrubar o sorvete no chão, juntar os amigos em casa para ver um filme, discutir com um amigo por qualquer bobagem e mandá-lo à merda e qualquer outra coisa que um ser humano faz, mas de um jeito que só uma artista faria.
Não consigo imaginar Célia numa fila do banco ou Alaíde Costa tirando a roupa da máquina de lavar.
De nenhum modo estou a duvidar da expressão artística dessas grandes mulheres aqui citadas, apenas que elas não me transmitem essa idéia de completude de um ser único mulher/artista que, talvez por isso, mescle tão bem música, poesia e interpretação em cada um desses atos.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Bate o sino, pequenino

A carne mais barata do mercado...

Respeito póstumo