O tempo que não vivi

Essa semana meu irmão publicou no Facebook que aprendeu a gostar de Geraldo Azevedo comigo, por causa de um LP que eu tinha.
O LP era Luz do Solo, e apesar de ser muito bonito mesmo, não é isso que importa aqui. Preocupado em meus próprios problemas, na adolescência, nunca pensei em compartilhar qualquer experiência, gostos, atividades com meu irmão mais novo.
Durante um tempo, a diferença de quase 4 anos realmente atrapalhava, mas creio que não fomos mais unidos por causa da minha incapacidade de aproximação.
Claro que eu tinha sentimentos diversos pelo fato de ter um irmão, desde o natural ciúme, da competição, da pirraça irracional e covarde com alguém mais novo, ao companheirismo em algumas travessuras, o desespero e a culpa quando involuntariamente provoquei sua queda e ele se machucou muito, o sentimento de inadequação e de que não era bom exemplo como irmão.
Enfim, durante um tempo de minha vida, apesar de não sermos nenhuma família desustruturada, aliás longe disso, também não posso negar uma ausência, uma falta de diálogo maior, uma percepção sobre interesses, coisas e idéias.
Na verdade, apenas depois que sai de casa, passei a enxergar minha mãe como um indivíduo, independente da sua função estabelecida na sociedade como mãe. Com meu irmão isso ocorreu na época do seu casamento. Lembro que senti uma desvinculação de sua imagem na minha cabeça, de um ser que simplesmente fazia parte da teia de relações que existia em torno de mim (mãe, irmão, primos, tios, avós, amigos, colegas), para enxergá-lo como alguém com sua história própria de vida, seguindo seu caminho.
Somos resultantes de nossos passados, e não tem como mudar o que já foi, nem negar influências das mais diversas que sofremos. Se não passei mais tempo com meu irmão, perdi. Não há como saber como seria, nem há porque se perder tempo lamentando. A vida segue.
Ambos tivemos uma boa criação, uma vida feliz, passamos por problemas, que se em algum momento nos pareceram grandes, hoje podemos ver que diante das coisas por que passam tantas pessoas, eram insignificantes, temos saúde, ele tem dois filhos saudáveis e bonitos. E somos felizes.
Mas não deixa de ser impressionante que, apesar de não nos falarmos sempre, hoje conversamos através de uma rede social, nos intervalos entre os almoços ocasionais em casa de D. Annete.
E há quem diga que contato na internet é virtual... não sei





Comentários

  1. Djamin01:02

    Nunca pude conversar com você da forma como eu gostaria. Você é meu irmão mais velho, e na ausencia do nosso pai queria ter você como meu exemplo, mas você nunca permitiu que eu me aproximasse muito. Nessas ocasiões em que nos encontramos, gostaria de falar mais com você, conversar, partilhar meus problemas (ainda sou seu irmão caçula). Sei que não podemos mudar o passado, mas estar em nossas mãos fazer um futuro diferente. Impressionante essa postagem hoje falando sobre isso. Justamente nesse sábado eu reatei um namoro com uma pessoa que conheci dois anos atras. Na epoca vacilei, terminei com ela. Nos encontramos semana passada e o sentimento voltou. De la para cá conversamos 03 vezes e ontem resolvemos tentar novamente. Estou muito feliz com isso.
    Podemos sim ter um futuro diferente.
    TE AMO meu irmão, embora nunca tenha te falado isso.

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  2. Lindo, Dja... Sinto a mesma coisa em relação ao meu passado e vivencio essa coisa do relacionamento na internet ser mais intenso e constante que antes, dentro da casa materna. Fui às lágrimas... muito mais bela beleza do texto e pela imagem. O final, o vídeo, demais, chave de ouro...

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  3. Lindo texto, Dja. Traduz muito bem o que ocorre hoje comigo, mantendo via internet o contato com irmãos, filho, amigos da infância... E novos amigos, como vc, tão reais... O vídeo no fim foi perfeito. Bjs!

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  4. abri mão sem perceber do contato com o meu irmão adolescente quando saí de casa para viver um amor.. na época nem pensei nisso, nem levei em consideração.. e essa pergunta de 'como teria sido' me vem às vezes.
    hoje é a pessoa da minha família mais distante de mim, e era tanto amor o que tínhamos.. mas não dá meesmo pra saber se seria diferente se eu tivesse ficado.. enfim,

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