Analista urbano

- Ontem um tomei viagra!
A confissão não veio de um amigo, parente ou colega de trabalho. Estava diante de um taxista de São Paulo, que nunca vi mais gordo na vida, e até duvido que ele pudesse tê-lo sido.
Sei que parte da culpa disso é minha, que acho esnobe ir sentado no banco de trás. Já percebi que quando a gente senta no banco da frente, o motorista acha você um cara simples, um chapa, brother e se sente à vontade de falar sobre sua intimidade.
Em geral não ligam de contar suas aventuras e desventuras sexuais. Certa feita um senhor relatou que mantinha uma amante de 30 e poucos anos. Assumiu não ter ilusões sobre os sentimentos da moça, que sabia que só transava com ele porque ele pagava as despesas, mas dizia que naquela idade era isso ou pagar prostitutas para ter sexo. Com a moça ele ainda tinha jantar e carinho. Eu ouvia tudo perguntando a qualquer deus hipotético porque eu estava sendo submetido àquilo.
Com o taxista gordo, não dei resposta alguma na esperança de que o assunto terminasse ali. Mas eu sabia que não.
- Me disseram que dava problema do coração, que acelerava, mas não senti nada. Pelo contrário, fiquei relaxado depois.
Eu pensei em alertar para os riscos do viagra para um homem da idade e do peso dele. E sugerir que fosse a um médico, mas aquilo ia render mais conversa e ainda estávamos longe do destino.
E também do fim da conversa, para meu desespero.
- Essa menina falou que tava sozinha há um ano, porque o namorado tava preso.
A essa altura eu já achava que o velho não achava suficiente arriscado o trânsito de São Paulo, ainda resolvia tomar viagra pra comer mulher de bandido. Não ficou claro se tinha sido de graça, mas tenho cá minhas dúvidas.
- Eu nunca tinha experimentado porque antes era caro. Mas a patente expirou e agora tem um monte genéricos dele. O preço caiu.
Tenho certeza que tem culpa do Serra nesse cartório.
Olhei no mapa do GPS, já não faltava tanto. Talvez não desse tempo de ele começar a descrever o desempenho, coisa que eu temia desde que esse papo começou. Deu.
- O negócio ficou durão. Novinho em folha. Mas não endurece assim de vez, não. Eu pensava que tomava e subia, mas eu tomei e comecei com a menina, aí foi funcionando. Precisa ter desejo.
Desesperadamente tentava evitar que aquelas palavras que entrávamos por meus ouvidos se transformassem em imagens na minha mente.
- Ainda tenho duas aqui. Mas agora vou guardar pra "véia" hoje em casa.
Final da Augusta, graças a Deus.
Agora, sabendo que não dava mais tempo de ele replicar, falei sobre a necessidade de procurar um cardiologista, de que ele poderia ter um problema no coração se continuasse usando sem saber como estava de saúde, que os alertas que os amigos fizeram não eram bobagens.
Ele só teve tempo de concordar que não ia ao médico há muito tempo.
Não sei se ele vai seguir o conselho que pode salvar sua vida, mas acho que ficou impressionado. O suficiente pra salvar a noite da "véia"!

De agora em diante, sentarei no banco de trás, pois já percebi que nem todo taxista é Roberto Carlos:

"Ouço todo tipo de conversa
O tempo todo tô ligado
Só me meto, dou palpite,
Dou conselho quando sou chamado"
(O Taxista - Roberto Carlos)

Pelo celular: Djaman Barbosa.

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