A Cuca te pega

Dorme, neném, que a Cuca vem pegar...

A Cuca é uma velha feia que rouba crianças desobedientes. Especialmente as que não dormem na hora que mandam. Monteiro Lobato resolveu dar à Cuca a imagem de um jacaré completo, cara e corpo, com cabelos amarelos, e assim ela ficou para todos aqueles que leram e assistiram ao Sítio do Picapau Amarelo. Mas lembro que, ainda criança, eu me assustei com um episódio em que a Cuca, com um feitiço, se transformava em gente. A imagem de Dorinha Durval, pra mim, era mais assustadora do que quando ela se metia na roupa de jacaré, pelo simples fato de que, daquela forma, nem D. Benta, nem Tia Nastácia, podiam se defender da bruxa. Não me preocupava tanto com os meninos, com a boneca e o sabugo, porque eles podiam se defender com suas palavras mágicas, faz-de-conta, amigos mágicos e outros, mas as velhas não acreditavam nessas coisas e, por isso, não podiam suspeitar que aquela senhora fosse mais do que aparentava. O interessante é que a mágica da Cuca não deu muito certo e a cauda de jacaré dela permaneceu, tendo que ficar escondida debaixo da saia.
Lembro que, tempos depois, um outro episódio mostrava de novo a Cuca se metamorfoseando. Desta feita, a atriz era Catharina Abdala, mas eu já tinha crescido um pouco e não sentia medo do enredo. Só me assustava o fato de a antiga atriz ter sido trocada porque assassinou o marido. Não se comentava muita coisa na frente das crianças em minha casa, mas eu tinha a impressão de que Dorinha Durval foi uma sofredora, que sua condenação foi uma grande injustiça e que seria bem diferente se fosse o marido que matasse a mulher... mas os tempos eram outros e não se podia falar muita coisa, quer fosse para crianças ou para adultos.

O fato é que hoje a "Cuca" se mostra mais uma fez fantasiada de ser humano. A imagem da procuradora Vera Lúcia Gomes deve servir para mais do que atemorizar criancinhas, mas revelar a face hipócrita desse país que coloca qualquer pessoa com cargo importante e dinheiro acima de qualquer suspeita.
É sabido que a procuradora tinha tentado adotar uma criança anteriormente e, diante do insucesso, acusou falsamente a mãe da criança de pedofilia e tráfico de bebês. Apesar de as investigações demonstrarem que  procuradora agiu de má-fé, nenhuma providência foi adotada contra ela na época e o fato nem sequer foi levado em conta na hora de uma nova adoção. Sabe-se também que ela acusava ex-empregados de roubou na hora de demití-los, talvez como forma de não pagar direitos trabalhistas, prática bem comum hoje em dia, pois o empregado amendrotado fica aliviado só em ser inocentado e nem pensa em passar pela porta da Justiça pra mais nada. Apesar de as investigações não terem concluído nada, nenhuma providência foi tomada contra a autora das denúncias falsas.
Na verdade, parte das mazelas desse país são fruto de nossa conivência e tolerância com "pequenas" infrações. Não percebemos que a impunidade do infrator fortalece nele a certeza que pode fazr mais e mais. Aí quando o caso estoura, a gente não entende, ou finge não entender, como algo assim pode ter acontecido sem ninguém perceber.

Não percebeu porque não quis. A cauda da Cuca tava lá!



Ouçam a bruxa.



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