quarta-feira, 23 de abril de 2008

O povo unido...

No inicio do ano um garoto foi morto por um bandido que tinha sido acusado de matar outras 11 crianças e foi liberado pela polícia. A benevolência da lei causou a morte de Daniel Bernardi Lourenço.

Em março, fomos apresentados a cenas de horror de uma empresária que torturava uma criança.

Início de abril, um garoto de 9 anos é queimado com ferro de marcar gado.

Situações chocantes, revoltantes e, no entanto, não motivaram as mobilizações e as vigílias que se vêem no caso da garota Isabela.

O que há de tão chocante nesse caso, que falta aos outros? Os casos do menino queimado e da menina torturada relatam cenas de pura crueldade. Não foi um rompante de fúria irracional, como parece ter sido o caso Isabela. Foi apenas maldade, sem propósito, pelo puro prazer de causar dor. E, apesar disso, a população não se revoltou.

Aliás, por que a população está revoltada? O crime é chocante, sem dúvida, mas a polícia investigou, apontou suspeitos, coletou provas, pediu a prisão dos acusados. Ou seja, não foi como o caso do garoto Daniel, onde a negligência da polícia causou a morte do garoto.

No caso de Isabela, só restaria ao povo acompanhar os andamentos do processo e torcer pela condenação dos assassinos. Apesar disso, o povo insiste em ir pras ruas, gritar, ameaçar de morte, ofender os familiares dos acusados, como se eles não tivessem sofrendo o suficiente, ou como se ter um parente assassino também os incriminasse.

O Padre Marcelo fez uma "missa pela paz", ou sei lá como se chamou, como se o assassinato da menina fosse fruto da violência pública que vitima crianças nesse país todos os dias. Não foi. Foi uma tragédia, sim, mas privada, a qual o Estado não pode se furtar em coibir. O movimento todo da população, em defesa dessa única menina, vítima da violência familiar, não se explica.

E não venham me dizer que é uma tragédia maior por um pai matar um filho. Quantas crianças tem sido mortas por seus pais e mães no noticiário? No Espírito Santo um pai foi acusado de atirar a filha do 4º andar e... nada de protestos, nem saiu por mais de uma semana no Jornal Nacional e nem pensar em capa da Veja.

Ahhhh, talvez esteja aí um fato importante. As pessoas que vão protestar nas ruas pela morte de Isabela sabem que serão filmadas, fotografadas, talvez até entrevistadas. Não digo que essa seja a intenção primordial delas, mas o caso Isabela "está na moda", os outros não. O fato de amenina ser branca e de classe média, ao contrário dos demais relatados e dos milhares que aconteceram nesse país, em nada prejudica a solidariedade do povo, da imprensa, dos padres...

É um caso chocante, sim. Mas nada justifica tanto destaque, tanta cobertura, como se fosse a pior coisa que aconteceu nesse país nos últimos 15 anos.

Um comentário:

  1. a resposta pra tudo está no últimmo parágrafo.. o povo está seguindo o "destaque" e a "cobertura" que a mídia está fazendo nesse caso, a tragédia da "menina Isabela" foi adotada por todos os brasileiros..
    brasileiros são fraternos, um povo "família"..isso toca o coração, assim como o caso Suzane Richinãoseidasquantas..
    a menina que foi jogada pelo pai do quarto andar não morreu..

    o que vai vir de chocante agora?
    ou
    o que vai ser mostrado?

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Salvador sempre teve um público cativo de teatro que lota salas. Pelo menos, se estivermos falando de peças com atores globais. Não importa...