Vida de gado

Quando li que a Câmara Municipal de Piracicaba pretendia promulgar uma lei para impedir o sacrifício de animais em cultos afros, achei uma boa idéia.
Não que eu acreditasse nas boas intenções dos vereadores de lá, pois se eles estivessem preocupados com os animais realmente, deveriam também proibir o uso deles em testes e o abate cruel.
Não faz nenhum sentido ficar causando dor e sofrimento a seres vivos para encontrar uma melhor cor de batom ou uma fragrância nova. O ser humano não precisa de um novo pó compacto!
Mas logo vi que os adeptos das religiões de matriz africana (gente não tem um termo próprio, como católicos, crentes, protestantes, espíritas? Dá um trabalho escrever tudo isso) estavam protestando alegando discriminação religiosa.
Pra mim parecia ser mesmo por discriminação. Mas do ponto de vista dos animais, me pareceu certo.
Afinal, por que sacrificar animais para atender a crença do humano?
Os religiosos alegaram o direito constitucional à crença religiosa.
Discordo. Quer dizer, concordo com o direito à livre manifestação da religiosidade, mas temos que convir que ele não pode ser absoluto e tem que coexistir com outros direitos.
Por exemplo, se eu fosse adepto de uma religião que pregasse o sacrifício de bebês ou de mulheres virgens, não poderia exercer minha crença, correto?

O que muitos esquecem é que a humanidade já teve essas manifestações religiosas, mas foi evoluindo ao passar a entender mulheres e bebês não mais como coisas, mas sim como seres vivos iguais ao homem. Será que não está mais do que na hora de estendermos esses modo de ver aos animais?
Outro exemplo foi quando a lei do silêncio chegou às igrejas, obrigando-as a fazer tratamento acústico. Alegou-se discriminação. Ora, a liberdade de culto dos evangélicos não é mais que o meu direito ao sossego. Valores, cada um tem o seu. Então o direito ao culto não pode ser absoluto.
Pra mim, matar animais num ritual religioso é algo sem sentido, desnecessário e só existe em função da arrogância humana de achar que a sua crença é tão verdadeira que se sobrepõe à vida de outros seres.
Concatenadas todas essas idéias, pensei em escrever o post. Mas faltava alguma coisa.
Faltava saber o que as pessoas que praticavam esses rituais achavam disso. Eu já tinha visto a questão da liberdade religiosa, mas e o que eles falavam sobre a crueldade dos animais?

Notei que muitas das discussões sobre o tema vinha de uma tal Rede Afrobrasileira Sociocultural. Fui lá e, para poder participar, fiz minha inscrição.
Coloquei minhas ponderações e esperei por respostas e, como é comum em dicussões públicas, um monte de acusações de discriminação, racismos, ignorância e outras coisas que lemos em fóruns sempre que damos uma opinião contrária.
Enquanto esperava li as manifestações que já havia lá sobre o assunto. Diziam da hipocrisia da lei porque as pessoas não iriam se tornar vegetarianas. Atacam só os cultos afros.
Dessa argumentação também discordei. Uma coisa é matar um animal para se alimentar. Alimentar-se de carne faz parte da própria natureza. Um animal mata outro para comer. O que acho desnecessário é esse abate cruel que temos. Se o ser humano tem conhecimento e condições de abater sem causar dor desnecessária ao animal, por que fazê-lo? Só pode ser crueldade.
Mas o que estava sendo questionado era matar para atender um ritual. Pois começaram a chegar os comentários à minha postagem. E ciomo eu estava escrito na rede, recebia mensagens de outros fóruns também. Meu email ficou povoado de palavras que eu não entendia e de nomes tão estranhos como se eu tivesse entrado numa rede de RPG.
Em primeiro lugar, devo dizer não houve uma única resposta mal-educada ou intolerante. A rede parece ser formada por pessoas adultas e maduras. Recebi respostas de Pai Sandro de Obaluwaye e Alexandre de Oxalá - Baba Alaiye
Compreenderam que meus questionamentos partiam de um desconhecimendo do ritual e explicaram, em várias linhas que vou resumir, que basicamente eles matam animais em rituais onde eles são usados como alimento. Até aí, não fazem nada mais cruel do que eu quando compro um BigMac.
A diefrença é que eles próprios fazem isso. Criam os animais e matam ali, pelo que entendi.
Não há qualquer prazer nessa matança, e o jantar é ritualístico.
Por mim, até aí, tudo bem. Ou pelo menos, tudo tão ruim pros animais quanto o que todo humano carnívoro pratica. Talvez até menos, porque as galinhas ali não são torturadas como nas granjas, onde ficam acordadas com luz forte sobre a cara e lhes metem um tubo na garganta por onde são obrigadas a comer.
Mas não é isso que está no imaginário popular. O que a população pensa é que os animais são sacrificados para se fazer "trabalho", "despacho".
Claro que os vereadores, para fazerem a lei, deveriam ter se inteirado do assunto. Deveriam ter ido verificar como são tratados os animais e porque eles são sacrificados.
Mas esse senso comum sobre o sacrifício fortaleceu os grupos de defesa dos animais. Eles nõa estavam necessariamente sendo discriminatório, mas estavam pesando o que eles achavam que era feito com os bichos com o que eles acreditam que seja direito desses bichos. Eles não precisavam ser vegetarianos para isso, como muitos nos fórum diziam, porque eles não estavam defendendo que não se podia abater aniamais para alimentação. Mas eles estavam contra o que parecia ser um abate desnecessário.

Há um outro aspecto desses rituais que ainda questiono. É quando o animal é sacrificado para uma "troca de energia" ou algo assim. É como se matasse o animal para curar alguém.
Como agnóstico, essa segunda parte me parece desperdício. Questiono também se, num plano de divindidades, animais valem menos que humanos. Novamente arrogância humana. Nos achamos a imagem dos deuses e fazemos os deuses à nossa imagem. Todavia, não é diferente do que quando fazem animais sofrerem dores terríveis em pesquisas da cura de doenças para humanos. A diferença é que de um ponto os animais são mortos pela ciência e noutro pela fé.

Enfim, cheguei a conclusão que infelizmente animais são mortos em rituais afro, da mesma forma que são mortos em abatedouros e laboratórios.

Acho que o pessoal da Rede Afrobrasileira Sociocultural, que conseguiu impedir a aprovação da lei, poderia fazer um trabalho de esclarecimento à população. Bastava explicar o que me explicaram, que até o presidente do Greenpeace seria obrigado a concordar que os animais estão morrendo nos terreiros pelos mesmos motivos que morrem no dia-a-dia: para alimentação e na esperança de restaurar saúde dos humanos.

Um dia, espero, alcançaremos a compreensão de que os outros seres não existem para nos servir. Mas até lá, é pura discriminação querer parar a prática só no candomblé.

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